Alta no custo das passagens exige ajuste de rota, não paralisia

 

Por Jair Pasquini, idealizador do Meeting Brasil e há mais de 30 anos no turismo internacional
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A recente notícia sobre o aumento do querosene de aviação, com potencial de elevar o preço das passagens em até 20%, acende um alerta importante para todo o setor turístico. É natural que haja preocupação, especialmente em um mercado que depende diretamente da mobilidade e da competitividade dos destinos. No entanto, é fundamental compreender que o turismo nunca operou em um cenário de estabilidade plena. Ao contrário, sempre foi um setor moldado por ciclos, adaptações e decisões estratégicas tomadas sob pressão.

Ao longo de mais de três décadas acompanhando o turismo internacional, foi possível observar diferentes momentos de instabilidade, desde crises econômicas e oscilações cambiais até eventos globais que impactaram diretamente o fluxo de viajantes. Mais recentemente, a pandemia evidenciou de forma contundente a vulnerabilidade do setor, mas também revelou sua capacidade de reinvenção. O turismo não desapareceu, ele se reorganizou, encontrou novos caminhos e retomou sua força.

Esse histórico nos ensina que o fator determinante não é o obstáculo em si, mas a forma como ele é enfrentado. O aumento no custo das passagens certamente influencia o comportamento do consumidor, mas não elimina a demanda. O que ocorre, na prática, é uma transformação no perfil de compra. O viajante passa a ser mais criterioso, valoriza mais a experiência e toma decisões com maior nível de análise. Isso significa que o mercado se torna mais seletivo, e não necessariamente menor.

Quando o custo sobe, o mercado amadurece

Diante desse cenário, é imprescindível evitar uma leitura simplista de retração automática. O turismo tende a responder com maturidade, ajustando-se às novas condições. Naturalmente, existe um papel relevante a ser desempenhado pelo poder público. O setor precisa avançar no diálogo institucional, buscando equilíbrio, previsibilidade e condições que mantenham a competitividade do Brasil no cenário internacional.

Essa articulação deve ocorrer de forma coordenada, envolvendo entidades representativas como, Abear, Abav, ABIH, CNT, Embratur, Ministério do Turismo, e todos os atores da cadeia produtiva do turismo. Trata-se de um esforço coletivo, baseado em diálogo e construção de soluções, que permita reduzir impactos e criar um ambiente mais favorável ao desenvolvimento do turismo.

No entanto, limitar a resposta apenas à esfera institucional seria insuficiente. O mercado exige agilidade e capacidade de adaptação, características que dependem diretamente da atuação dos empresários e profissionais do setor.

Ajustar a rota é uma decisão de quem está no comando

Enquanto as soluções estruturais são discutidas e implementadas, é necessário agir com pragmatismo. Existem caminhos claros que podem ser adotados para mitigar impactos e manter o fluxo de negócios.

O primeiro deles está relacionado à eficiência. Em um cenário mais competitivo, torna-se essencial direcionar esforços para públicos com maior propensão de consumo, reduzindo dispersões e aumentando a taxa de conversão. O segundo caminho envolve o reposicionamento da oferta turística. Destinos e produtos que se apoiam exclusivamente no preço tendem a sofrer mais, enquanto aqueles que entregam valor e experiência conseguem manter sua relevância.

Outro ponto estratégico é a proximidade de mercado. Fortalecer relações com países que possuem maior conectividade e menor custo operacional, como os mercados da América do Sul e regiões específicas da Europa, pode representar uma vantagem competitiva importante. Além disso, a distribuição passa a assumir um papel ainda mais central. Estar bem posicionado junto a operadores e agentes qualificados é determinante para garantir presença nas decisões de compra.

Por fim, o ajuste operacional torna-se indispensável. Revisar formatos, produtos, datas e parcerias comerciais com agilidade é uma resposta direta à dinâmica do mercado, que não espera por condições ideais para se movimentar.

A experiência recente da pandemia reforça essa lógica de forma muito concreta. Em um momento em que o setor praticamente parou e muitos acreditavam que o turismo levaria anos para se recuperar, foi necessário tomar decisões difíceis e agir com visão de longo prazo. No caso do Meeting Brasil, optamos por transformar completamente o formato do evento, criando uma versão online que permitisse manter ativa a promoção internacional do Brasil. Acreditávamos que, mesmo diante do pior cenário, o mercado voltaria, e quem mantivesse relacionamento e presença sairia na frente.

Os resultados dessa decisão se mostraram consistentes ao longo do tempo. Antes da pandemia, haviam sido realizados 42 eventos ao longo de dez anos. Após esse período de adaptação e ajustes estratégicos, o calendário avançou de forma acelerada, e iniciamos 2026 com a marca de 100 eventos realizados em menos de 4 anos. Um crescimento que reflete não apenas resiliência, mas a capacidade de adaptação do setor.

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Leia também: Quantos eventos o Meeting Brasil já Realizou?
https://blog.expanmais.com.br/quantos-eventos-o-meeting-brasil-ja-realizou/

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O turismo brasileiro já provou sua força

Em 2025, o Brasil alcançou a marca histórica de mais de 9 milhões de turistas estrangeiros. Esse resultado não foi fruto de acaso, mas sim de um trabalho consistente de promoção, relacionamento e construção de mercado ao longo dos anos.

Esse movimento continua. Em abril, novas ações de promoção internacional seguem em curso na Europa, conectando destinos brasileiros a operadores e agentes estratégicos. No segundo semestre, a agenda se expande novamente para a América Latina, reforçando a presença do Brasil nos principais mercados emissores.

O turismo brasileiro já demonstrou sua capacidade de crescimento e consolidação no cenário internacional. As turbulências que surgem ao longo do percurso fazem parte de qualquer trajetória relevante. Cabe aos que estão à frente do setor compreender esse movimento, ajustar estratégias e seguir avançando com consistência.

Mais do que evitar obstáculos, o desafio está em saber atravessá-los com inteligência e visão de longo prazo. O Brasil segue sendo um destino desejado, competitivo e cheio de oportunidades, e a responsabilidade de manter esse posicionamento está diretamente ligada à capacidade de adaptação de todo o setor.

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